Hombu Dojo, Aikikai e Federação Internacional de Aikido (FIA)

Hombu Dojo, Aikikai e Federação Internacional de Aikido (FIA)

Para esclarecer a relação entre a Fundação Aikikai e a FIA (Federação Internacional de Aikido), é necessário dar algumas informações preliminares sobre a história do Aikido.

O Dojo Ueshiba

Em 1931 Morihei Ueshiba abriu um dojo no distrito Shinjuku de Tóquio, dedicado a prática da arte marcial que ele denominou aiki-budô.

O dojo foi conhecido como Kobukan e famoso como um lugar para a prática do que era então uma arte marcial revolucionária. O Kobukan foi também chamado de Dojo Ueshiba porque a arte marcial foi criada por Morihei Ueshiba.

O fundador foi influenciado pelo seu treino em várias artes marciais como o Daito-ryu Aiki-Jujutsu e sua crença na religião Oomoto, mas sua arte era fundamentalmente nova.

Os seguidores do fundador gradualmente se tornaram proficientes na arte e com o passar dos anos também a desenvolveram por si mesmos, eles estabeleceram seus próprios dojos e assim o Dojo Ueshiba se tornou o núcleo, ou “hombu”, da rede livre de dojos, todos unidos pelo vínculo entre Morihei Ueshiba e seus seguidores.

Entretanto, ainda que fosse uma organização não oficial, o nome Aikikai gradualmente se tornou usual como o nome para esses dojos unidos ao Dojo Ueshiba.

Morihei Ueshiba adotou o sistema de graduação “dan” usado por Jigoro Kano no Judô e este sistema se tornou um meio de unir os discípulos ao seu mestre.

Alguns dos seguidores de Morihei Ueshiba foram enviados a Manchúria, como parte da expansão japonesa na Ásia, e ensinar aiki-budô lá como disciplina do currículo universitário.

Os anos da Guerra

Durante os anos imediatamente precedente a 2 a. Guerra Mundial e, é claro, durante ela, a organização das artes marciais ficou sobre o controle do governo militar japonês. Morihei Ueshiba retirou-se para Iwama, na prefeitura de Ibaragi, onde ele dedicou-se a lavoura e a pesquisa nas artes marciais e na religião Oomoto.

Um santuário Aiki, dedicado à religião Oomoto, foi construído em Iwama em 1943. Entretanto, o Kobukan (Dojo Ueshiba) continuou em Tóquio sob direção de Kisshomaru Ueshiba (*), filho do Fundador e pai do atual Doshu. (*) falecido em jan/1999.

Muitos da segunda geração de seguidores, por exemplo, Sadateru Arikawa, Hiroshi Tada e, posteriormente, Seigo Yamaguchi, juntaram-se, logo após o fim da guerra, aos antigos estudantes, como Rinjiro Shirata, que eram membros da Kobukan desde os anos 30.

Após a derrota do Japão, a prática de artes marciais foram proibidas pelas forças de ocupação americanas, este fato e as severas condições econômicas tornaram impossível continuar as atividades da Kobukan e muito difícil para o dojo rural de Iwama. Nesta época o centro real do Aikido era em Iwama e ficou assim até 1956.

Kisshomaru Ueshiba tinha um emprego de tempo integral até 1955 e o dojo em Wakamatsu-cho (Shinjuku) foi temporariamente residência de famílias que perderam seus lares no bombardeio a Tóquio.

Todavia, Morihei Ueshiba continuou a atrair seguidores e eles se esforçaram para continuar a prática da arte, que posteriormente passou a ser conhecida como Aikido.

Morihiro Saito ingressou no dojo de Iwama em 1946. Hiroshi Isoyama ingressou logo depois, quando ainda era estudante secundarista. Outros, antigos, estudantes, como Okumura-shihan, retornaram ao Dojo Ueshiba após eles terem sido exonerados do serviço militar.

A organização ainda era muito livre, com o Dojo Ueshiba, em Shinjuku, sendo considerado como o local de nascimento da arte e o dojo santuário de Iwama como de fato o Hombu Dojo e, como tal, o centro da livre associação entre os, mais ou menos autônomos, dojos irmãos da Aikikai.

Principais Mudanças

Até 1949, não ocorreu prática regular em Shinjuku. As dificuldades econômicas dos anos da Guerra gradualmente foram diminuindo e a organização do Aikido, nos dez anos seguintes, também tomou numa personalidade diferente. Em vários aspectos, as mudanças foram revolucionárias e elas afetaram profundamente o desenvolvimento da arte.

Primeiro, a arte deixou de ser secreta e passou a estar disponível para qualquer um praticá-la. Um candidato a praticante não precisava mais de uma recomendação por parte de uma pessoa eminente para pisar no dojo. De fato, até por volta de 1956, os estudantes regulares do dojo de Tóquio consumiam a maioria de seus dias saindo para lugares como embaixadas estrangeiras, dando demonstrações de Aikido e procurando, ativamente, novos membros para o dojo.

Segundo, a prática do Aikido se tornou verdadeiramente internacional. Morihei Ueshiba em pessoa viajou uma vez para fora do Japão, para o Havaí, mas o seu filho, Kisshomaru Ueshiba, viajou extensivamente para fora do Japão. Alguns dos discípulos do Fundador e de Kisshomaru fixaram residências ou estabeleceram organizações embrionárias foram do Japão. Geralmente, essas organizações também usavam o nome Aikikai e adotaram a mesma livre estrutura como era encontrada na antiga Aikikai e organizações filiadas no Japão. Assim, nos antigos anos 60, Nobuyoshi Tamura, Hiroshi Tada, Katsuaki Asai e Kazuo Chiba viveram na Europa.

Durante o mesmo período, Yoshimitsu Yamada e Mitsunari Kanai estabeleceram-se nos Estados Unidos e Seiichi Sugano na Austrália.

Estrutura Legal

Outra grande mudança foi o Aikido se legalizar.

A “Zaidan Hojin Aikikai” (Fundação Aikikai) foi criada em 1948 e registrada na prefeitura de Ibaragi, onde o dojo Iwama estava localizado.

De fato, a Kobukan teve sua contrapartida legal na Kobukai, uma fundação criada em 1940 graças aos esforços do Almirante Isamu Takeshita, um estudante de Morihei Ueshiba.

Em 1948, entretanto, havia um desejo geral de se romper com o passado militarista e isto foi entendido, e também politicamente desejável, que a reconstituída organização deveria ser estabelecida legalmente como nova.

Como uma entidade legal, a Fundação Aikikai tinha estatutos, conselho de diretores e consultores e o Dojo de Iwama era o Hombu (Sede) da organização.

Posteriormente, a sede mudou-se de volta para Tóquio e o dojo de Iwama se tornou uma filial. Além disso, os graus “Dan” dados por Morihei Ueshiba e seus discípulos foram embutidos em um sistema, com validação dos graus também dados pela Fundação Aikikai.

De certo modo, essa mudança tardia foi problemática, antes a concessão de “Dan” era puramente pelo julgamento pessoal do mestre em relação à proficiência dos seus discípulos. Alguns graus de discípulos antigos, foram concedidos pelo Fundador verbalmente e nunca foram validados pela Fundação Aikikai.

O Hombu Dojo, a Aikikai e a FIA

O prédio situado em 17-18 Wakamatsu-cho, Shinjuku, Tóquio é, assim, o atual centro de operações do Aikido que pode ser subentendido sob três chefias separadas:

  1. Ele é a AIKIKAI HOMBU, isto é, a Sede da organização legal conhecida como Fundação Aikikai, com o seu conselho de diretores e consultores e seus registros de graus “Dan”. Em outras partes do Japão as organizações são denominadas SHIBU (filiais). Por exemplo, Filial Aikikai na prefeitura de Hiroshima (Aikikai Hiroshima Kenshibu) como parte da Fundação Aikikai registrada em Tóquio. O Presidente da Aikikai Hombu é o Doshu Kisshomaru Ueshiba e o Chefe é Moriteru Ueshiba.

  2. Ele é o HOMBU DOJO, o lugar aonde o Aikido é praticado de acordo com os princípios legados por Morihei Ueshiba. O Hombu Dojo é o dojo sede da rede de organizações da Aikikai, tanto no Japão como no exterior, que têm sido criadas por seguidores do Fundador ou de seu filho e que também mantém vínculos pessoais com o Fundador e sua Família.

  3. Ele é a Sede da Federação Internacional de Aikido (FIA) / International Aikido Federation (IAF). A Federação Internacional de Aikido foi fundada pelo desejo de várias organizações de Aikido na Europa. A Aikikai Hombu acordou com a criação da FIA e o primeiro Congresso da FIA foi sediado em Tóquio em 1976.

Por não serem federações, a Hombu Dojo e a Fundação Aikikai não são membros da FIA.

Membro da GAISF

Neste ponto, entretanto, um delicado problema surge.

O fato da FIA ter sido criada no Japão significa que ela foi criada de acordo com a lei japonesa, mas a lei japonesa não acolhe a existência de organizações internacionais, mesmo elas tendo sido fundadas no Japão.

Outro problema foi que nem a Fundação Aikikai e nem a FIA tinham status formal fora do Japão.

Eventualmente, após muita discussão e argumentação, a decisão foi procurar se tornar membro da GAISF – General Association of International Sports Federations (Associação Geral de Federações Esportivas Internacionais) que é a única organização que reúne todas as federações internacionais de esportes olímpicos e não-olímpicos em um grande corpo.

A GAISF é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional e da qual praticamente todas as organizações esportivas do mundo são membros.

Já que a Fundação Aikikai não é uma federação internacional e não pode se associar ao GAISF, então o único membro do GAISF para o Aikido é a FIA, membro desde 1984.

Ambos, a Hombu e a FIA estão bem cientes que a participação em uma federação internacional de esportes é singular, pois nas bases fundamentais do Aikido não há competições e, neste sentido, não pode ser visto como esporte.

Todavia, o fato é que alguns países criaram seus próprios padrões para a organização e reconhecimento de entidades de artes marciais, com suas regras e reconhecimento considerando o comitê olímpico nacional ou filiação à GAISF, como uma condição essencial para o reconhecimento local do Aikido. Por isso a FIA, e sua filiação ao GAISF, é elemento muito importante no reconhecimento internacional do Aikido, como ele é ensinado e praticado na Hombu Dojo e normatizado pela Fundação Aikikai.

P. A. Goldsbury, Diretor-Presidente da FIA

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Traduzido por: Mário COUTINHO Jr. e Revisado por: J.F. SANTOS (02/jan/1999)
No site da FIA encontra-se o texto original em inglês.