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O itinerante é......Kazuo Igarashi!

Dedicando sua vida ao Aikidô, seus professores e seus amigos.

Uma infância reservada.

 Aiki News: O mestre Kobayashi tem treinado Igarashi sensei desde quando era um estudante universitário. Depois disso, mestre Igarashi trabalhou como instrutor para o mestre Kobayashi por muito tempo.

Eu ouvi que o senhor veio da prefeitura de Niigata

Igarashi: Sim, eu nasci em Mikawa-Mura Higashi Kanbara-Gun Prefeitura de Niigata. Eu nasci em 1946, logo depois da Segunda Guerra Mundial. Durante minha infância eu mudava frequentemente, pois meu pai trabalhava para uma companhia de seguros de vida. Desde os meus 5 anos de idade o mais longo período de tempo em que ficamos em um lugar foi de 2 a 3 anos, e o mais curto foi de 6 meses.

Durante a escola primaria nos mudamos 3 vezes, e durante o ginásio mudamos 3 vezes. Em cada mudança eu era transferido para uma nova escola. Durante o primário eu estava em Niigata, no ginásio em Sapporo, Hokkaido.

Durante os primeiros anos estava tudo bem em ficar mudando, mas quando fui ficando mais velho ficar mudando de escolas vária vez tornou difícil fazer amizades. Como resultado eu fiquei fechado, mantendo apenas alguns amigos próximos da época do ginásio.

 

Aiki News: Seu primeiro contato com artes marciais, mas não foi Aikidô; foi Judô, correto?

Igarashi: Quando entrei no colégio Tsurumi, em Yokohama. Eu era tímido e queria mudar minha personalidade, por isso eu comecei a treinar Judô. Até então eu não era muito de fazer atividades esportivas, e eu era um jogador ruim especialmente nos esportes com bola e por isso escolhi o Judô. Eu recebi faixa preta (Shodan) em Judô em 3 anos. Foi no íngreme Mitsuike Park, atrás do colégio e correr era parte do treinamento. Era tão difícil no meu caso. Eu tinha um corpo pequeno com apenas 160 centímetros de altura e pesava 50 Kg. Por isso não conseguia completar inicialmente. Graças ao Judô minha atitude mudou de tímido para uma pessoa mais extrovertida e confiante. Judô era divertido e mesmo assim os treinos eram sempre árduos. Foi uma ótima experiência para conhecer outras Artes Marciais, além do Aikidô.

 

O encontro com o Aikidô

 

Aiki News: Você entrou para Universidade Meiji?

Igarashi: Sim, em Abril de 1964, eu ingressei na faculdade de política e economia. Eu vi o Aikidô pela primeira vez na Universidade. Ainda que tenha me formado na Universidade, eu digo que realmente me formei pelo clube de Aikidô da Universidade Meiji, e não como cientista político e econômico da Universidade de Meiji. (risos)

Era um clube de Aikidô fundado em 1955, na Universidade, pelo mestre Kobayashi quando ele era estudante universitário. Eu nada conhecia sobre Aikidô até eu terminar o ginásio. Neste tempo Aikidô não era uma arte marcial popular. Eu não tinha visto publicação alguma sobre Aikidô, mas talvez tivessem algumas. Na primeira vez que vi Aikidô durante uma demonstração introdutória de iniciantes de Karatê Shorinji Kempo e Aikidô. Foi nessa ocasião que o Aikidô atraiu meu coração.

 

Aiki News: É verdade que o mestre Kobayashi era o instrutor de Aikidô na Universidade Meiji quando era jovem?

Igarashi: Sim, o mestre Kobayashi é exatamente 10 anos mais velho do que eu e com uma energia abundante. Ainda que mais novo ele não era cheio de agressividade, conversando com seus alunos de vários anos, eles disseram que ele costumava ser muito agressivo e bruto. De qualquer forma eu treinava 6 dias por semana, fora os domingos, por duas horas intensas por dia. A hierarquia entre o mestre e seus estudantes era bem severa.

 

Aiki News:  Que aspecto do Aikidô mais lhe atraiu?

Igarashi: Por exemplo, no Judô a pessoa que é menor jamais vencerá uma pessoa maior. Contudo, no Aikidô havia algo além do que o tamanho de seu corpo. Se obervar o mestre Kobayashi e eu notará que somos, ambos, pessoas pequenas. Não apenas o mestre Kobayashi era pequeno, instrutor como mestre Koichi Tohei, o mestre Kishomaru Ueshiba e outros professores naquele tempo eram pequenos também. Apesar de seus corpos serem pequenos, quando colocavam seus kimonos (Aikidô gi) eles pareciam maiores do que realmente eram. Professores do meu tamanho eram bem vigorosos, o que me impressionava. Outro aspecto que me atraiu para o Aikidô foi o fato de não haverem competições como no Judô. Se houver uma palavra para descrever o Aikidô, esta, a meu ver, seria “lazer”. Eu estava interessado em como criar, dominar e usar o Ki. Aikido tem um misticismo que o Judô não possui o que me atraiu para ele. Quando era estudante tive a oportunidade de assistir aulas de diversos senseis. Hoje, a maioria destes professores espalhou-se para vários países em todo mundo. Antes, para atender a Universidade Meiji, havia um estudante sênior, era Asai Sensei, todavia ele foi ensinar Aikidô na Alemanha em tempo integral. Ele era 4 anos mais antigo do que eu, então quando eu comecei ele já era graduado. Perdi contato com ele.

 

Aiki News: O’Sensei (Fundador do Aikidô) estava vivo naquela época?

Igarashi: Sim, eu o vi varias vezes enquanto ele treinava. Waka Sensei (Atual Doshu) era incrível, mas O’Sensei era inacreditável. Eu achava que ele era um Deus. Ele tinha uma presença divina que o envolvia. Quando O’Sensei entrava no Dojô, você podia ouvir alguém gritar “Pare” e batia palma, então os estudantes ficavam em seiza e lhes davam boas vindas. Em nossa frente, ele projetava um uchi deshi (Aluno interno) e nos contava estórias filosóficas.

 

Aiki News: Você já foi projetado por O Sensei?

Igarashi: Não, eu não fui e isso é realmente frustrante. Se eu soubesse que faria disso uma carreira eu teria tomado à iniciativa de ser projetado mesmo que para isso tivesse que me jogar sobre ele.

Você está me perguntando sobre suas técnicas?

Seus movimentos eram feitos de forma que parecia não ter contato quando eles eram projetados, como no Irimi Nague. Era realmente raro ver professores que me projetavam ser projetados por ele.

 

Aiki News: Você tem alguma outra lembrança de quando você era estudante no Aikidô Clube?

Igarashi: Eu me lembro dos acampamentos de Aikidô, que eram árduos, mas emocionantes. Metade do tempo nestes acampamentos era treinando com pesos e corrida. Eu acho que eles faziam isso para afastar alguns estudantes, pois as aulas eram muito cheias. Treino pesado e duro.

E as suas demonstrações na Universidade?

Eu sempre usava uma espada de verdade para apresentar as técnicas de Tachidori. Hoje, quando penso nisso me dá arrepios. Hoje, eu nem mesmo cogito fazer isso novamente. Isso é muito assustador. É legal ser jovem e sem medos, né?

No meu terceiro ano de Universidade eu comecei a treinar Iai Dô (esgrima japonesa) e Jodô (Bastão contra espada) próximo a Universidade. Depois de treinar Judô e várias outras artes marciais eu compreendi a grandeza do Aikidô.

 

Vivendo no Kobayashi Dojô.

 Aiki News: Então, você começou a trabalhar após a Universidade?

Igarashi: Sim, eu comecei a trabalhar como editor em uma editora especializada em tópicos sobre engenharia. Em meados dos anos 60 o crescimento da economia japonesa me forçou a trabalhar dia e noite, tornando impossível praticar Aikidô por um tempo. Eu podia observar eventos especiais no Dojô como etsunen geiko (passagem do Ano e treino).

Após 5 anos de trabalho, eu comecei a questionar se aquele ritmo de vida era o melhor para mim.

Eu era muito aplicado ao trabalho de modo que eu não tinha nenhum tempo livre. Eu sabia que isso não era o melhor para mim, mais pensei eu ainda era jovem e precisava explorar novas possibilidades.

Como resultado, eu deixei meu trabalho e decidi exercer o Aikidô em um nível mais sério.

Eu então pedi ao mestre Kobayashi, no jantar de inauguração do Tokorozawa Dojô, que ele permitisse que eu me tornasse um Uchi Deshi (aluno interno).

 

Aiki News: Então, foi um Uchi Deshi?

Igarashi: Não, um penetra!! (risos). Após trabalhar por 5 anos eu tinha conseguido economizar o suficiente para curtir a vida por, no mínimo, 2 anos sem trabalhar. Então pedi ao mestre Kobayashi para ser aceito em seu Dojô. O Tokorozawa Dojô abriu em novembro de 1972 e eu tinha planejado em viver lá. No entanto, eu tive a oportunidade de ficar no Kodaira Dojô onde o mestre Kobayashi residia. Mudei-me em 1º de Janeiro de 1973. Claro que paguei pelas minhas despesas de moradia e treino.

Hoje em dia, jovens estudantes vem com freqüência me perguntar quanto eu pagava, e quanto eles pagarão para se tornarem Uchi Deshis. Eles ficam normalmente ficam chocados em saber que os alunos tem que pagar para o mestre. Isto é uma coisa natural!

A editora em que trabalhei permitiu que eu trabalhasse em meus horários livres; isto me deu a oportunidade de trabalhar durante o dia e voltar ao Dojô à noite.

Em 1973, Bruce Lee lançou um filme bombástico que iniciou o “Boom” das artes marciais. O mestre Kobayashi estava extremamente ocupado, e como resultado eu fui intimado pelo mestre Kobayashi perguntando, “O que você quer fazer? Você quer se tornar um instrutor profissional?”. Eu estava em uma situação onde eu poderia ter o Aikidô como uma carreira, mas eu estava preocupado sobre a segurança deste trabalho como instrutor de Aikido. Como “plano B”, então, entrei em uma escola de acupuntura. Em 3 anos obtive minha licença de acupunturista, até hoje não tive que usá-la, mas sinto que me beneficiou. Os pontos de pressão e meridianos que aprendi podem ser utilizados no Aikidô.

Quando o Kobayashi Dojos se expandiu para diferentes locais, eu comecei a ensinar. A experiência que tive vivendo com o mestre Kobayashi, fazendo coisas juntos como comer, beber e conversar com ele até o amanhecer foi magnífico.

O mestre Kobayashi disse que com cada refeição sempre vem um drink. (Noites intermináveis de aulas teóricas! – Nota do tradutor). Estou certo que fui um embaraço para a esposa do mestre. Este estilo de vida continuou até meu casamento em 1976.

 

Ensinando na Europa

 

Aiki News: Então em 1978, você ensinou na Europa?

Igarashi: Sim, o sensei Toshikazu Ichimura me convidou para ensinar na Suíça, Finlândia e próximo às terras Escandinavas. Antes de deixar o Japão, o sensei Kobayashi me aconselhou sobre como relaxar quando ensinar pela primeira vez em outros países, sua sugestão foi ficar em seiza, cumprimentar e olhar no rosto de cada estudante de um canto da sala ao outro. Eu também deveria começar com Suwari Waza para Ushiro Waza. Eu achei o que ele me deu um bom conselho, que funciona. No início, quando os estudantes estavam sentados, eu não percebi o quanto eram grandes, até que se levantavam e eu não conseguia ver a parede dos fundos. Pensei que estivesse encrencado (risos) e entendi a razão de começar as aulas com Suwari Waza. Eu percebi que estudantes estrangeiros são muito sérios e respeitadores. Eles eram realmente entusiasmados e eu notei que eram bem educados com relação ao Aikidô e O’Sensei. Retornei ao Japão após viajar pelas Terras Escandinavas por um ano.

 

 

Aiki News: Você notou alguma diferença quando retornou ao Japão?

Igarashi: Provavelmente minha confiança e minha forma de ensinar tenha melhorado. Como não conseguia me comunicar com meu inglês quebrado, tive que achar um jeito diferente de ensinar usando gestos e ações. Acredito que minha forma de ensinar melhorou porque eu tive que pensar em formas diferentes para as pessoas entenderem melhor. O mestre Kobayashi também tem um estilo próprio de ensinar e hoje em dia todo ano eu viajo para Escandinávia duas vezes por ano.

 Aiki News: Muito obrigado por seu tempo. Eu gostaria de fazer uma última pergunta. Que benefícios você tem adquirido praticando Aikidô?

Igarashi: Os benefícios? Sou quem sou hoje, graças ao Aikidô. Tudo devido ao Aikido!

Eu não tinha intenções de me tornar um instrutor, mas, depois de protelar por muitos anos, em 1983, eu abri meu próprio Dojô. Sinto que não me esforcei muito para ser quem sou atualmente, mas tudo esteve caminhando perfeitamente. Atualmente eu continuo viajando para Escandinávia, Áustria, Canadá, Etc. Mas tendo 54 anos, viajar tem me desgastado e tenho pensado em diminuir essas viagens. O sensei Asai me disse que é um privilégio ser convidado, e que se eu desagradasse, poderia não ser mais convidado. Eu continuo me esforçando para ensinar, porque eu preciso ensinar em outros países. Se eu não tivesse mais nada para ensinar aos estudantes, me sentiria inseguro, então eu pratico também. Até que eu diga que não tenho mais nada a oferecer, continuarei trabalhando.

 Entrevistador: Tsukasa Matsuzaki.
 05 de Setembro de 2000, no Hashimoto Dojô.
Traduzido e adaptado por Gustavo Nogueira Santos (Aikidô - Shikanai Dojôs)
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